Como construir autoridade em Gestão de Projetos com base em critério, não em certificado — lições de quem transitou do Exército para a TI sem mapa.

Era uma terça-feira comum em Bagé, 1994. Eu havia passado a madrugada estudando informática em um computador com conexão discada. Minha filha mais velha, ainda pequena, me perguntou:

"Pai, por que você dorme menos que todo mundo?"

Eu não soube responder. Na verdade, eu estava construindo algo sem certificado, sem aval, sem garantia. Estava aprendendo que valor não vem de diploma, vem de entrega sob incerteza.

Mais de trinta anos depois, atuando como professor e consultor, percebo que a lógica permanece: certificação é atalho, não destino. Em um mercado como o brasileiro, marcado por escassez, prazos apertados e contextos imprevisíveis o que sustenta a autoridade não é o selo na parede, mas a capacidade de decidir com critério quando o manual não chega.

Neste artigo, apresento três pilares para construir valor sem depender exclusivamente de diplomas. A intenção não é desprezar certificações, mas provocar uma pergunta de critério:

Quando o recurso escasseia ou o cenário muda, o que realmente mantém o projeto no rumo?

Na prática, quando o procedimento para de funcionar, só o critério sustenta a operação.


Pilar 1: Critério sobre procedimento

Quando servi na Amazônia, em 1990, enfrentei uma decisão que nenhum manual antecipava: tinha em minhas mãos duas requisições legítimas e uma única peça de reposição. Uma viatura do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) precisava daquele suprimento para uma operação na selva. Outra viatura da 12ª Região Militar aguardava a mesma peça há três meses. O procedimento normal dizia: atender a requisição por ordem de chegada.
A realidade exigia a priorização por impacto na missão. Escolhi atender a demanda do CIGS.
Recebi uma ligação tensa da 12ª RM no dia seguinte. Não tinha argumento burocrático para dar. Apenas critério.

Reflexão: Quando o recurso some, não há discurso que mantenha uma viatura rodando. Só o critério mantém o funcionamento mínimo.

A Gestão de Projetos no mercado brasileiro passa por contextos semelhantes, onde a escassez é regra. Os orçamentos dos projetos são enxutos, os prazos muitas vezes são irreais e as equipes multifuncionais. Ainda assim, vemos profissionais travando em decisões simples porque aguardam "a certificação certa" ou "o procedimento aprovado".

Pergunta de critério: Se você tivesse que justificar sua última decisão sem citar uma norma ou certificação, que argumento usaria?

Aplicação prática: Antes de buscar uma nova certificação, teste: esta competência resolve um gargalo real do meu contexto atual? Se não, é investimento, não prioridade. 


Pilar 2: Tradução sobre tradução

Minha primeira aula no MBA de Administração Estratégica de Sistemas de Informações, na FGV, em 2003, foi um batismo de fogo. A turma era composta de executivos maduros, alguns mais velhos que eu, diretores de um grande banco público, que lidavam com milhões de reais diariamente.

Eu havia preparado slides técnicos, conceitos robustos, referências atualizadas.

Um aluno levantou a mão: "Professor, isso funciona mesmo fora do papel? O senhor já aplicou isso com recursos limitados?"

A pergunta desmontou metade do que eu havia preparado. Respirei fundo e fiz algo diferente: fechei o slide seguinte e contei um caso real. Falei de logística, de escassez, de decisão com informações incompletas. Não usei nenhum jargão.

A sala mudou. Os celulares foram para baixo, os corpos inclinaram para frente, todos queriam ouvir aquela experiência para problemas semelhantes que enfrentavam diariamente...

Reflexão: A autoridade não vem do título na porta, vem da capacidade de fazer o complexo parecer simples, sem simplificar demais.

PerguntaSe você tivesse que explicar seu último projeto para alguém de outra área em três frases, o que permaneceria?*

Aplicação prática: Grave um áudio de 90 segundos explicando o valor do seu trabalho para um leigo. Se precisar de mais tempo, há excesso. Se não conseguir, há ruído. 


Pilar 3: Coerência, não certificado

Minha transição do Exército para a TI, da caserna para a sala de aula, não foi validada apenas por certificados. Foi validada por entregas. Não foi fácil, não foi linear, mas foi coerente. E coerência, em um mundo de atalhos, é vantagem competitiva.

Não estou dizendo que certificações não importam. Importam. Mas elas são meio, não fim. São ferramentas, não identidade. Quando o manual não chega e no Brasil, frequentemente não chega, o que sustenta a decisão não é o diploma na parede. É a capacidade de ler o ambiente e agir com prudência.

Relevância não é estar atualizado. É saber o que, em você, ainda precisa ser atualizado.

No Brasil, profissionais experientes muitas vezes acumulam certificados como prova de relevância. Mas relevância não se mede por volume. Se mede por coerência: o que você entrega, para quem, com que impacto.
Aplicação prática: Liste três certificações ou cursos que você considera "essenciais". Para cada um, pergunte: se eu não tivesse isso, ainda conseguiria entregar valor mensurável? Se a resposta for sim, priorize a entrega. Certifique depois, se ainda fizer sentido.

Uma pergunta para você:

Na próxima vez que sentir que precisa "provar valor" com mais um diploma, teste uma pergunta de critério antes. Me conte nos comentários: o que mudou na sua decisão?

Porque, no fim, o mercado não paga por certificados, paga por capacidade de resolver problemas reais, com recursos reais, em contextos reais.

E isso ninguém certifica. Isso se constrói — um critério de cada vez.