Como construir autoridade em Gestão de Projetos com base em critério, não em certificado — lições de quem transitou do Exército para a TI sem mapa.

Era uma terça-feira comum em Bagé, 1994. Eu havia passado a madrugada estudando informática em um computador com conexão discada. Minha filha mais velha, ainda pequena, me perguntou:

"Pai, por que você dorme menos que todo mundo?"

Eu não soube responder. Na verdade, eu estava construindo algo sem certificado, sem aval, sem garantia. Estava aprendendo que valor não vem de diploma, vem de entrega sob incerteza.

Mais de trinta anos depois, atuando como professor e consultor, percebo que a lógica permanece: certificação é atalho, não destino. Em um mercado como o brasileiro, marcado por escassez, prazos apertados e contextos imprevisíveis o que sustenta a autoridade não é o selo na parede, mas a capacidade de decidir com critério quando o manual não chega.

A âncora de mercado: Essa transição da busca pelo "crachá" para a busca pela competência real não é apenas uma percepção de quem está na trincheira. O mercado global e nacional vem formalizando essa mudança sob o conceito de Skills-Based Hiring (Contratação Baseada em Habilidades). De acordo com o relatório Global Talent Trends do LinkedIn, empresas em todo o mundo estão ativamente removendo a exigência de diplomas de seus anúncios de vagas para focar em competências práticas e portfólio de entregas. No Brasil, onde a escassez de profissionais de tecnologia e gestão qualificados é crônica, essa realidade é ainda mais latente: quem resolve o problema dita as regras, independentemente da parede estar cheia de molduras.

Neste artigo, apresento três pilares para construir valor sem depender exclusivamente de diplomas. A intenção não é desprezar certificações, mas provocar uma pergunta de critério:

Quando o recurso escasseia ou o cenário muda, o que realmente mantém o projeto no rumo?

Na prática, quando o procedimento para de funcionar, só o critério sustenta a operação.


Pilar 1: Critério sobre procedimento

Quando servi na Amazônia, em 1990, enfrentei uma decisão que nenhum manual antecipava: tinha em minhas mãos duas requisições legítimas e uma única peça de reposição. Uma viatura do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) precisava daquele suprimento para uma operação na selva. Outra viatura da 12ª Região Militar aguardava a mesma peça há três meses. O procedimento normal dizia: atender a requisição por ordem de chegada.
A realidade exigia a priorização por impacto na missão. Escolhi atender a demanda do CIGS.
Recebi uma ligação tensa da 12ª RM no dia seguinte. Não tinha argumento burocrático para dar. Apenas critério.

Reflexão: Quando o recurso some, não há discurso que mantenha uma viatura rodando. Só o critério mantém o funcionamento mínimo.

A Gestão de Projetos no mercado brasileiro passa por contextos semelhantes, onde a escassez é regra. Os orçamentos dos projetos são enxutos, os prazos muitas vezes são irreais e as equipes multifuncionais. Ainda assim, vemos profissionais travando em decisões simples porque aguardam "a certificação certa" ou "o procedimento aprovado".

Pergunta de critério: Se você tivesse que justificar sua última decisão sem citar uma norma ou certificação, que argumento usaria?

  • Aplicação prática: Antes de buscar uma nova certificação, teste: esta competência resolve um gargalo real do meu contexto atual? Se não, é investimento, não prioridade. 

Pilar 2: Tradução sobre tradução

Minha primeira aula no MBA de Administração Estratégica de Sistemas de Informações, na FGV, em 2003, foi um batismo de fogo. A turma era composta de executivos maduros, alguns mais velhos que eu, diretores de um grande banco público, que lidavam com milhões de reais diariamente.

Eu havia preparado slides técnicos, conceitos robustos, referências atualizadas.

Um aluno levantou a mão: "Professor, isso funciona mesmo fora do papel? O senhor já aplicou isso com recursos limitados?"

A pergunta desmontou metade do que eu havia preparado. Respirei fundo e fiz algo diferente: fechei o slide seguinte e contei um caso real. Falei de logística, de escassez, de decisão com informações incompletas. Não usei nenhum jargão.

A sala mudou. Os celulares foram para baixo, os corpos inclinaram para frente, todos queriam ouvir aquela experiência para problemas semelhantes que enfrentavam diariamente...

Reflexão: A autoridade não vem do título na porta, vem da capacidade de fazer o complexo parecer simples, sem simplificar demais.

PerguntaSe você tivesse que explicar seu último projeto para alguém de outra área em três frases, o que permaneceria?*

  • Aplicação prática: Grave um áudio de 90 segundos explicando o valor do seu trabalho para um leigo. Se precisar de mais tempo, há excesso. Se não conseguir, há ruído. 

Pilar 3: Coerência, não certificado

Minha transição do Exército para a TI, da caserna para a sala de aula, não foi validada apenas por certificados. Foi validada por entregas. Não foi fácil, não foi linear, mas foi coerente. E coerência, em um mundo de atalhos, é vantagem competitiva.

Não estou dizendo que certificações não importam. Importam. Mas elas são meio, não fim. São ferramentas, não identidade. Quando o manual não chega e no Brasil, frequentemente não chega, o que sustenta a decisão não é o diploma na parede. É a capacidade de ler o ambiente e agir com prudência.

Relevância não é estar atualizado. É saber o que, em você, ainda precisa ser atualizado.

No Brasil, profissionais experientes muitas vezes acumulam certificados como prova de relevância. Mas relevância não se mede por volume. Se mede por coerência: o que você entrega, para quem, com que impacto.
  • Aplicação prática: Liste três certificações ou cursos que você considera "essenciais". Para cada um, pergunte: se eu não tivesse isso, ainda conseguiria entregar valor mensurável? Se a resposta for sim, priorize a entrega. Certifique depois, se ainda fizer sentido.

Aplicação Direta: Dicas de Aprendizado

Para você que quer construir autoridade real na prática, execute este plano de ação simples nesta ordem:

  • Hoje (Ação de 15 minutos): Faça uma auditoria rápida nas descrições de suas funções no LinkedIn ou no seu currículo. Remova os jargões vazios e as siglas que só servem para "encher linguiça". Substitua frases passivas por resultados de impacto. Em vez de escrever "Responsável por gerenciar escopo usando metodologia ágil", mude para "Liderei a equipe na entrega do módulo X sob forte restrição de prazo, reduzindo o retrabalho em 15%". O mercado procura o impacto da entrega, não o manual.
  • Esta semana (Planejamento curto): Identifique o maior gargalo atual do projeto ou setor onde você atua hoje. Em vez de procurar um curso para tentar resolver, reúna as informações incompletas que você tem disponíveis e desenhe uma solução simples de contorno baseada no seu critério. Apresente essa solução ao seu time ou liderança focando na simplificação do processo.
  • Este mês (Consolidação a médio prazo): Crie um documento simples de "Lições Aprendidas de Campo" sobre o seu último projeto concluído ou uma crise resolvida. Documente onde o procedimento padrão falhou e como o seu critério salvou a operação. Esse relato prático servirá como o seu verdadeiro portfólio de autoridade para a sua próxima transição ou subida de degrau profissional.

Uma pergunta para você:

Na próxima vez que sentir que precisa "provar valor" com mais um diploma, teste uma pergunta de critério antes. Me conte nos comentários: o que mudou na sua decisão?

Porque, no fim, o mercado não paga por certificados, paga por capacidade de resolver problemas reais, com recursos reais, em contextos reais.

E isso ninguém certifica. Isso se constrói — um critério de cada vez.